X-Men: Dias de um Futuro Esquecido
Há filmes de super-heróis que funcionam enquanto espetáculo e há aqueles que, além do espetáculo, conseguem construir uma reflexão sobre seus próprios personagens. X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, dirigido por Bryan Singer, pertence à segunda categoria. Lançado em 2014, o filme tinha uma tarefa particularmente complicada: conciliar duas gerações de atores, reorganizar uma franquia que já havia acumulado contradições e ainda entregar uma aventura capaz de agradar tanto ao público acostumado aos quadrinhos quanto ao espectador interessado apenas em uma boa ficção científica. O resultado não é perfeito, mas é, sem dúvida, um dos trabalhos mais interessantes da franquia.
O ponto de partida é promissor. No futuro, humanos e mutantes estão praticamente condenados à extinção por causa dos Sentinelas, máquinas desenvolvidas para caçar e eliminar mutantes. Em uma tentativa desesperada de alterar esse destino, Wolverine é enviado ao passado para impedir um acontecimento que, décadas antes, colocou em movimento uma cadeia de acontecimentos responsável pela tragédia. A partir daí, o filme alterna constantemente entre passado e futuro, trabalhando com a ideia de que pequenas decisões podem modificar toda uma história.
O mérito de Dias de um Futuro Esquecido está justamente em compreender que viagem no tempo não precisa ser apenas um mecanismo para criar cenas espetaculares. Aqui, ela funciona como uma oportunidade de revisitar os personagens. O Wolverine de Hugh Jackman continua sendo o centro emocional da história, mas o filme inteligentemente não transforma tudo em mais uma aventura individual do personagem. O verdadeiro conflito está entre Charles Xavier e Erik Lehnsherr, ou Professor X e Magneto.
James McAvoy e Michael Fassbender são particularmente eficientes. McAvoy interpreta um Charles Xavier completamente diferente daquele que conhecíamos: mais jovem, amargurado e praticamente destruído pelas próprias escolhas. Fassbender, por outro lado, mantém Magneto como uma figura simultaneamente fascinante e perigosa. A relação entre os dois continua sendo uma das grandes forças dramáticas da franquia, porque não se resume a uma disputa entre herói e vilão. Eles possuem visões diferentes sobre a convivência entre humanos e mutantes, e o filme entende que esse conflito ideológico é muito mais interessante do que simplesmente colocar os dois para trocar golpes.
É justamente nesse aspecto que o roteiro encontra sua melhor qualidade. Por trás das viagens no tempo, dos poderes e dos efeitos especiais, existe uma história sobre arrependimento. Charles precisa encarar os erros que cometeu. Erik precisa lidar com as consequências de suas próprias escolhas. E Wolverine, apesar de ser o personagem enviado para alterar o passado, funciona quase como um espectador privilegiado diante da possibilidade de mudar aquilo que parecia inevitável.
Bryan Singer também demonstra domínio da escala. O futuro apresentado no início do filme possui uma atmosfera sombria, quase apocalíptica. As sequências envolvendo os Sentinelas são visualmente impressionantes, especialmente quando os mutantes tentam resistir a inimigos capazes de reproduzir seus próprios poderes. Mas o diretor sabe diminuir o espetáculo quando necessário. As melhores cenas do filme não são necessariamente as maiores batalhas; muitas vezes são conversas entre Charles, Erik e Logan.
Um exemplo particularmente marcante é a sequência de Quicksilver. Evan Peters aparece por pouco tempo, mas sua cena durante a fuga da prisão é uma das mais criativas da produção. A utilização da câmera lenta transforma uma situação potencialmente banal em uma espécie de coreografia visual. É uma sequência que demonstra que filmes de super-heróis podem encontrar soluções inventivas para apresentar poderes sem simplesmente depender de explosões digitais.
O problema é que o filme também carrega alguns excessos. São muitos personagens, muitos acontecimentos e uma quantidade considerável de informações que precisam ser resolvidas rapidamente. Alguns mutantes importantes aparecem mais como peças de um tabuleiro do que como personagens propriamente desenvolvidos. Isso fica especialmente evidente com alguns integrantes da equipe do futuro, cuja presença serve principalmente para aumentar a sensação de perigo.
Também existe uma questão interessante envolvendo a própria lógica temporal do filme. Dias de um Futuro Esquecido tenta corrigir parte das contradições construídas pelos filmes anteriores da franquia, especialmente aqueles relacionados à cronologia. A solução encontrada é funcional dentro da narrativa, mas não elimina completamente os problemas. Em alguns momentos, percebe-se que o roteiro está mais interessado em abrir uma nova possibilidade para a franquia do que em explicar rigorosamente todas as consequências da alteração temporal.
E talvez essa seja uma das características mais curiosas do filme: ele funciona melhor emocionalmente do que logicamente. Se o espectador parar para analisar cada detalhe da linha temporal, encontrará algumas perguntas difíceis de responder. Porém, enquanto experiência cinematográfica, a proposta funciona porque existe um investimento real nos personagens.
O terceiro ato, nesse sentido, é particularmente eficiente. O filme consegue transformar uma batalha aparentemente inevitável em uma disputa pela possibilidade de um futuro diferente. Não se trata apenas de derrotar um inimigo; trata-se de convencer determinados personagens a fazer escolhas diferentes. O passado deixa de ser simplesmente uma explicação para o presente e passa a ser o campo onde o futuro será decidido.
Há também um componente melancólico que merece ser destacado. A ideia de apagar determinados acontecimentos significa, de certa maneira, apagar parte da própria história dos personagens. Para uma franquia que já havia produzido vários filmes, essa decisão possui um significado quase metalinguístico. Dias de um Futuro Esquecido é, ao mesmo tempo, uma continuação e uma tentativa de recomeço.
Depois de tantos anos acompanhando filmes de super-heróis, uma coisa que chama atenção é como X-Men: Dias de um Futuro Esquecido não depende exclusivamente da novidade. O filme funciona porque conhece seus personagens e entende que o público já possui uma relação emocional com eles. Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, James McAvoy e Michael Fassbender ajudam a transformar uma história potencialmente confusa em algo emocionalmente acessível.
Isso não significa que o filme seja uma obra-prima. Ele possui problemas de ritmo, personagens subaproveitados e uma estrutura narrativa que exige certa tolerância com suas próprias regras. Mas, dentro da história dos filmes de super-heróis, representa um momento em que o gênero demonstrava que ainda era possível utilizar grandes produções comerciais para discutir temas como preconceito, intolerância, responsabilidade e arrependimento sem transformar tudo em um discurso excessivamente didático.
No fim, talvez a maior qualidade de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido esteja justamente no título. O filme fala sobre um futuro que precisa ser esquecido, mas também sobre um passado que não pode simplesmente ser ignorado. Seus personagens recebem uma segunda oportunidade, e a franquia também.
É um blockbuster, certamente. Mas é um blockbuster que, por alguns momentos, parece compreender que seus personagens são mais interessantes do que seus poderes.
Nota: 8,5/10.
Não é o filme mais revolucionário do gênero, nem precisa ser. É uma ficção científica de super-heróis muito bem conduzida, emocionalmente consistente e suficientemente inteligente para perceber que, às vezes, a melhor maneira de seguir em frente é voltar ao passado.
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