O Sr. Bom Dia

 O sol estava brilhando forte, fazendo cintilar o orvalho acumulado nas folhas, muitas delas no chão, depois de haverem perdido a segurança das árvores na última ventania. Os canteiros e jardins refletiam um cuidado refinado, e as flores se abriam, acolhendo abelhas e beija-flores, num ritual de vida magnífico.


No meio do jardim caminhava um ancião de andar vacilante. Em suas mãos, uma sacolinha plástica, de onde tirava adubo e depositava próximo dos arbustos.


Perto dali, uma pequena lanchonete servia café e pães de queijo, atraindo sempre algumas pessoas, que sentavam-se em cadeiras estrategicamente direcionadas para o jardim.


Percebendo a presença de visitantes, o ancião imediatamente interrompeu sua atividade, levantou o “boné” de sua cabeça e curvando-se referentemente, soltou um sonoro BOM DIA!

A reação dos visitantes foi automática. - BOM DIA, SENHOR!

Percebendo que os visitantes sentaram-se nas cadeiras e conversavam freneticamente sobre suas atividades e seus planos, sem dar muita importância para o jardim, o ancião decidiu se aproximar deles.

Cumprimentou novamente, retirando o boné da cabeça e curvando-se:

– BOM DIA MEUS JOVENS!

Desta vez, apenas duas pessoas decidiram retribuir o cumprimento enquanto os demais se ocuparam de seus cafés e pães. Certamente um sentimento incômodo, muito conhecido, tomou conta de algumas daquelas pessoas, que procuravam se “proteger” de um possível e inoportuno pedido de ajuda.

O ancião não ficou satisfeito e repetiu com mais vigor:

– BOM DIA MEUS JOVENS!

Movidos por uma reação de espanto, desta vez, todos olharam para ele e responderam, inclusive pessoas que estavam nas mesas mais afastadas.

O ancião sorriu e começou a falar para quem quisesse ouvir:

– Vocês são jovens e cheios de energia. Estudam e trabalham alucinadamente. Usam computadores e celulares para se comunicarem. Falam inglês, alemão e agora até chinês. Sabem usar esta tal de internet e conseguem saber de tudo. Querem ser grandes profissionais e ter muito dinheiro.

Sob o olhar de espanto e perplexidade de todos, ele continuou:

– São tão espertos, mas não conseguem desejar um bom dia de verdade para uma pessoa. Deviam saber que desejar um “bom dia” para alguém é como adubar seu próprio dia, fazendo florescer oportunidades.

Neste momento ele levantou a sacolinha que tinha nas mãos dizendo:

– Aqui eu trago diversos “bons dias” para as flores deste jardim, assim eu recebo delas “bons dias” cada vez que elas florescem e dão frutos. Vocês estão ai, tão cheios de seus problemas, que não percebem que as flores estão dando BOM DIA a vocês também.

Diversos visitantes se voltaram para o ancião e começaram a conversar.

Ele contou que um dia, recebeu a noticia de sua demissão e ficou arrasado. Voltou para casa muito triste. Naquela noite ele dormiu muito mal e acordou com dor de cabeça e com um gosto amargo na boca.

Sentia-se perdido, sem rumo. Desejando fugir do mundo. Sua amargura era tão grande que não queria conversar com ninguém, quando mais, dizer “bom dia”.

Decidiu caminhar para esquecer os problemas.

Quando estava próximo do jardim, uma criança pegou uma flor e interrompendo a caminhada do ancião, olhou para ele e disse:

– BOM DIA! O SENHOR ESTÁ TRISTE ? TOME ESTÁ FLOR. EU ADUBEI O JARDIM A SEMANA TODA E AGORA ELA ESTÁ DESEJANDO UM BOM DIA PARA O SENHOR.

O ancião disse que aquele gesto da criança, trouxe uma alegria tão grande, que ele começou a dar “bom dia” a todas as pessoas que encontrava em sua caminhada, recebendo cumprimentos e também diversas e inesperadas reações. Contou que, recebeu tantos “bom dias” que ficou mais confiante. Afinal, aquele teria que ser um BOM DIA.

Na tarde daquele mesmo dia, decidiu sair em buscas de alternativas de trabalho e não demorou muito tempo até ele se recolocar.

A partir de então, decidiu desejar “bom dia” a todos que encontrava, e quando se aposentou, escolheu ajudar aquele menino a cuidar do jardim.

Quando contou está história, o ancião tinha 97 anos e já adubava aquele jardim há 45 anos, sendo conhecido por todos os visitantes do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, como o Sr. BOM DIA.

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